Phi

“Home is the place you miss the most when you aren’t there” Maggie Jones

“De onde você é?”
Parece que a cada dia a resposta para essa pergunta se torna mais complexa.
“Você quer saber onde eu nasci, onde fui criado ou onde estou?”

A oitava edição do Encontro Philhos este ano tratou sobre pertencimento. Para nós, filhos de missionários ou filhos de terceira cultura, esse é um assunto bastante delicado, uma vez que a maioria mudou-se vezes e vezes sem conta ao longo da vida e não pôde estabelecer de fato raízes em um só lugar. Por isso, perguntar-nos de onde somos é um enigma difícil de ser resolvido. Mas podemos tentar.

Sempre ouvi e acreditei que não são as coisas que tornam um lugar especial, mas sim as pessoas. E isso se comprovou novamente este ano.

Pudemos perceber o zelo e cuidado de Deus para com as nossas vidas assim que chegamos no Encontro. Ouvir tantos sotaques e idiomas diferentes narrando inúmeras histórias e experiências em países diversos, sendo falados dentro de uma mesma sala por adolescentes e jovens de tantas idades nos deixou mais à vontade para sermos quem somos de verdade, cheios de peculiaridades e singularidades.

O lugar – um centro de treinamento para envio de outros futuros missionários – trouxe lembranças para alguns FM’s de suas terras do coração. A terra, o clima, a vegetação e os cheiros geraram momentos de nostalgia naqueles que sentem saudades do lugar onde foram criados.
A equipe – formada por pais de FM’s, ou seja, missionários, junto com outros filhos mais experientes e pessoas que se dispuseram a ajudar – foi usada pelo Pai em todos os momentos para nos fazer sentir em casa.
As ministrações – certamente muito inspiradas por Deus – acertaram em cheio o coração dos participantes, com palavras de conforto, desafio e direcionamento.

Os filhos de missionários –  cerca de quarenta adolescentes vindos de todos os continentes – se identificaram e estabeleceram amizades com outros filhos que poderão levar para a vida toda, apesar das distâncias, porque se entendem mais do que ninguém e são quase todos especialistas em manter relacionamentos à distância.

Em minha viagem de volta de avião, tive um sentimento diferente do que normalmente sinto ao deixar algum lugar: completude.
Geralmente sinto um vazio pequeninho, uma saudade imediata e uma dor por deixar mais uma “casa”. Dessa vez, ao olhar pela janela, meu coração estava tão cheio e tão grato pelas experiências e amizades que trouxe comigo que só conseguia sentir paz.

No Encontro, Jesus me lembrou que, apesar das inúmeras mudanças de casas aqui na Terra, terei sempre abrigo certo nos braços dEle. Estarei em casa quando estiver com Ele, porque pertenço à Ele.

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Mas ela não se assustou? – crônica

Ainda de olhos fechados consigo escutar os adultos conversando lá fora, alguém mexendo panelas na cozinha, entre o barulho do gerador da vizinha e o som daquele pássaro que parece viver nos fundos da casa. Quando abro os olhos, vejo o mosquiteiro cinza pendendo sobre mim e os finos colchões de algodão encostados na parede de cimento, indicando que as meninas já estão acordadas.

Num movimento rápido, para cumprir com a aposta boba que fiz comigo mesma, tento me livrar da rede pendurada no teto. Ignoro o fato da cama estar bem próxima do chão, bato forte os pés no piso de concreto e logo me arrependo. Lembro-me das histórias contadas na noite anterior sobre as frequentes visitas de escorpiões, motivo pelo qual nos aconselharam a andar sempre bem calçados.

Enquanto tomo o mata-bicho – um sinônimo de “café da manhã” no português de Portugal – meia dúzia de pessoas entram e saem da sala, olhando de forma curiosa para mim. Todos cumprimentam meus pais e o casal anfitrião, deixando a casa com a promessa de voltar mais tarde para o serão.  Entre estas pessoas estava uma mulher com cerca de 24 ou 25 anos de idade, que deixou a filha pequena aos cuidados da dona da casa, para ir trabalhar na praça – espécie de feira angolana. Aproximei-me da menina fazendo careta, na tentativa de fazer amizade, logo estávamos no quintal brincando de montar casinhas de barro com as outras crianças que se juntaram a nós.

Passamos o dia brincando. Fomos até o rio seco, onde os adultos cavam buracos à procura de água, para brincar próximo aos grandes embondeiros – árvore grande conhecida também como baobá – e junto com as meninas mais velhas, costuramos roupinhas para as bonecas de pano.

No final da tarde como combinado a mãe da menina voltou para buscá-la e ficou surpresa ao vê-la brincando comigo.

– Ela não se assustou? – perguntou espantada apontando para sua filha.

– Por que se assustaria? – questionou a anfitriã – Ela ficou muito tranquila durante o dia.

– É porque minha filha nunca tinha visto uma pessoa branca antes, então achei que iria estranhar!

 

 

Casa(s)

Casa – /’kazɐ/ – 2.família; lar 3.conjunto dos membros de uma família.

 

 

Minha casa sempre foi meu abrigo. Dentro dela a cultura foi sempre a mesma. A língua, o cardápio, o vestuário, os valores e a regras sempre se mantiveram, independente da cidade ou país. Isso me ajudou bastante – e continua ajudando – diante das mudanças frequentes da minha família.

Não me queixo dessas mudanças, pelo contrário enquanto muitos consideram isso um sinônimo de instabilidade, eu chamo de oportunidade! Oportunidade de viajar e conhecer lugares diferentes, lidar com outras culturas, fazer sempre novos amigos, etc.

Entretanto, é fato que qualquer indivíduo, por mais flexível ou tolerante que seja, precisa de um apoio, uma base, algo estável, onde possa sempre encontrar auxílio. Isto é o que chamo de “casa”.Casa é mais do que uma estrutura física que serve de abrigo. É um espaço onde convivem um grupo de pessoas, normalmente uma família, onde se espera encontrar paz, conforto e descanso do que há fora dela.

Por isso, quando me perguntam a fórmula secreta para não enlouquecer em meio a tantas mudanças, digo que é estar apoiada em minha família, meus únicos amigos ao chegar numa cidade nova. Dentro de casa não sofro choque cultural, não preciso me adaptar. Entre minha família não sou estrangeira e não preciso me apresentar para ninguém.

Assim, estando com eles, estou em casa.

 

Como é ser um FM- para o blog Diário de Missionários

Por conhecer O Deus ao qual meus pais servem e por entender a missão dada a eles, afirmo com toda a certeza que, antes de qualquer outra coisa, ser uma filha de missionários é um privilégio!

Devo esclarecer que este é um título dado a filhos de indivíduos que vivem cumprindo com a Grande Comissão (Mt 28.19,20) num ambiente transcultural ( qualquer outra cultura). Sendo assim, nem todos almejam este título visto que este estilo de vida implica mudanças e adaptações que, se não explicadas, tendem a tornarem-se fardos. O FM criança e adolescente que acompanham seus pais e envolvem-se na missão, como meu irmão e eu, fazem parte do ministério de seus pais e cumprem com o propósito específico de Deus para a vida deles, até o dia em que forem chamados para cumprir com sua própria missão.

O Evangelho foi apresentado a mim desde pequena e, portanto, compreendo que meus pais estão obedecendo a Deus. Por isso, sei que Deus é nosso Pai e cuida de Seus filhos, suprindo nossas necessidades e cuidando de nós; entendo que estou apenas acompanhando meus pais, pois o Senhor tem um plano específico para a minha vida; tenho certeza de que Deus se preocupa comigo também e com minhas necessidades pessoais, dando sabedoria aos meus pais para que me instruam da melhor forma.

Não me canso de compartilhar o texto de Jeremias 1.5 que diz “ – Antes do seu nascimento, quando você ainda estava na barriga da sua mãe, eu o escolhi e separei para que você fosse um profeta para as nações”. Amo ver o que Deus faz através da vida de meus pais e já fico maravilhada com as coisas que sei que Ele ainda vai fazer através da minha vida.

Artigo para o blog Diário de Missionários -http://diaadiademissionario.blogspot.com.br/?m=1

No Frontiers – 2016

Depois de 14 anos volto ao meu primeiro campo missionário transcultural para participar da décima segunda edição do No Frontiers (Sem Fronteiras) Paraguai.
Devo confessar que no início estava com um pouco de receio, não fazia a mínima idéia do que estava para acontecer e duvidei se havia tomado a decisão certa. Sim! Tomei a decisão mais acertada de 2016!
Com o tema “Povo da Cruz”, o treinamento missionário realizado na Base de Misiones Paraguay acolheu mais de 80 cristãos, vindos de diversas partes do Brasil e outros países. Entre todas as diferenças tínhamos todos uma coisa em comum: a vontade de servir. Durante todas as ministrações, palestras e pregações visava-se transmitir a mensagem da cruz, do sacrifíco de Jesus e Seu desejo de que todos nós, que já encontramos Seu amor, levemos o evangelho a toda a criatura.
Para esclarecer, foi apresentado um vídeo com algumas imagens do ato terrorista feito por extremistas, em uma praia da Líbia, no ano passado, onde 21 cristãos egípcios foram mortos como sinal de afronta aos seguidores de Cristo, os chamados “Povo da Cruz”. Feito isso, a música tema, que levava o mesmo nome, foi cantada como um hino, entoada por todos em uma só voz, vestidos de laranja, em memória daqueles que morreram pelo evangelho, declarando que “não seremos abalados”!
Depois de quatro dias de treinamento teórico, divididos em equipes, fomos enviados para seis dias de treinamento práticos em oito cidades paraguaias. Além do desafio de se relacionar e trabalhar em equipe com pessoas totalmente desconhecidas, tivemos de enfrentar alguns problemas de saúde e a barreira da língua, desconhecida pela maioria. Entretanto, unidos pelo mesmo propósito, alcançamos mais de mil crianças e realizamos diversas atividades em nossas respectivas igrejas, num tempo incrível de crescimento e aprendizado.
Não se engane ao pensar que é mais um treinamento missionário qualquer. Desde novos convertidos à mestres em Teologia, certamente todos agregaram novas informações e conhecimento, mais de Deus.
“Peina ape áime che, chemôndo cheve” Isaías 6:8
#povodacruz #peopleofthecross #pueblodelacruz #haepetetakurusugua

METAMORPHOSIS – Diário Borboleta

Avisto o carro com dois sorrisos incertos em seu interior. Após parar o veículo, a delicada moça desce e vem ao meu encontro, dizendo:
– Olá! Eu sou a M. Prazer! Seja bem-vinda à Montes Claros!
Começa ali, no simples gesto de me ajudar com a mala, o cuidado incrivelmente estudado para acolher os filhos de missionários que participariam do VI Encontro Philhos.
Nas horas que se seguiram, o nervosismo e frio na barriga, típicos para mim em qualquer acampamento, desapareceram surpreendentemente ao me identificar, em poucos instantes, com a garota que estava na cozinha preparando uma pizza para o jantar que antecedia o início do encontro. Perguntas como “É legal morar fora?” ou “Vocês têm TV em casa?”, não foram uma vez sequer pronunciadas, como em outras situações, visto que todos compreendiam a normalidade em ser um FM.
No dia seguinte, ao iniciarem oficialmente o encontro e começarem os trajetos rodoviária-aeroporto-centro, mais línguas se ouviam e mais FM’s se agregavam. Países como África do Sul e Guiné-Bissau ou estados como Maranhão e Santa Catarina, foram representados por adolescentes e jovens que tinham uma mesma coisa em comum: sabiam todos fazer as malas.
Cada atividade, cada palestra, toda oração ou qualquer abraço, visavam confortar e trazer ânimo àqueles que, vezes sem conta, mesmo cercados por dúzias de pessoas, sentem-se sozinhos. O carinho transmitido pelos líderes, gerando até algumas “adoções”, deixou o ambiente sempre pacífico, formando um grande família.
Uma das ministrações, que deu nome ao Encontro, abordou a fase mais importante da vida de uma futura borboleta: A METAMORFOSE. A lagarta, no interior da crisálida, passa por processos onde sua futura estrutura é definida. Sendo assim, o período que ela passa dentro da proteção, chamada de casulo apenas no caso das mariposas, é importantíssimo para seu desenvolvimento e precisa ser respeitado.
O mesmo acontece conosco, adolescentes. Estamos na fase das decisões e, consequentemente, das mudanças. Precisamos de uma direção de Deus para enfrentar estes desafios que definirão nosso destino. A maioria de nós, está dentro de uma crisálida, aguardando o tempo certo de abrir as asas e sair pelo mundo, cumprindo o propósito do Criador.

      Escrevo isso com atraso, mas recordo-me, e certamente sempre o farei, de todos os momentos que passei neste encontro e sou muito grata à Deus pela vida daqueles que o idealizaram.
Cuidaram dos que cuidam…

Natália Morais

Para sempre

“Instrui o menino no caminho que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele” Mateus 22:6.
Cabelo escuro, preso em um rabo de cavalo. Olhos cansados, mas atentos a todos os movimentos ao seu redor. Sua pequena mão desliza pelo papel e sua gentil voz, emite sons das palavras pronunciadas erroneamente, que revelam sua pouca idade, mas que fazem todo o sentido.
– Era vazia? Era escura mesmo?
Enquanto conto sobre a Criação, ela viaja pela imaginação. Não consegue entender como a terra era “sem forma e vazia”, sem pessoas, flores ou borboletas. Porém, os simples desenhos marcados na folha, chamam sua atenção e lançam no esquecimento sua questão. Quer agora saber o que o Criador fez para mudar a situação.
– Ele disse: “Haja luz”! E a luz passou a existir – digo eu, movendo minhas mãos em frente ao seu rosto, representando uma explosão de luz – E ele viu que era bom.
Provavelmente tenta visualizar em sua mente, o surgimento imediato de uma luz em uma terra escura. Ou apenas parou para observar as cores no papel que não pertencem ao desenho e estão fora das linhas, revelando seu uso anterior, visto que chegou atrasada e escuta a história já contada para as outras crianças. Apresso-me para terminar, pois todos estão indo embora, mas não deixo de contar detalhes dos seis dias especiais pois a garotinha está muito empolgada e ainda não percebeu que chegou apenas no final do encontro.
– E então, no último dia Ele descansou – termino a história e fecho o livro – Bom, vou dar para você a atividade, mas terá de fazê-la em casa porque o culto já acabou.
– Como já acabou? Eu quero ficar mais – afirma a menina, entristecida com a notícia.
– Vocês chegaram ao final e agora todos precisam ir para casa – tento explicar, levando a garotinha e sua irmã até a porta. Ela me dá a mão e atravessamos juntas a rua, parando em frente ao seu prédio. Não a conheço muito bem, mas sei da história de sua família e das dificuldades que passam aqui, sendo estrangeiros.
– Não quero ir para casa – diz a garota, cruzando os braços – quero ficar na Igrejinha.
– Mas você terá mais, no próximo sábado! – digo isso tentando lembrá-la de que voltará ao culto infantil – Estarei lá te esperando para contar mais histórias.
Abaixo-me, ficando à sua altura e pego sua mão, tentando confortá-la. Vejo todas as outras crianças que passam ao nosso lado e reflito em todos os relatos a mim contados. Recordo-me daquelas que são vítimas de crimes absurdos e também das que vivem em situações lastimáveis. Sinto-me distante de todas elas ao mesmo tempo em que me aproximo de suas realidades. Percebo que aquela menina diante de mim e todas as outras ao meu redor, são minha responsabilidade agora que as conheço. Abraço a garotinha e recebo em resposta algo que nunca esquecerei.
– A igrejinha é o melhor lugar. Eu queria ficar nela para sempre!