Para sempre

“Instrui o menino no caminho que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele” Mateus 22:6.
Cabelo escuro, preso em um rabo de cavalo. Olhos cansados, mas atentos a todos os movimentos ao seu redor. Sua pequena mão desliza pelo papel e sua gentil voz, emite sons das palavras pronunciadas erroneamente, que revelam sua pouca idade, mas que fazem todo o sentido.
– Era vazia? Era escura mesmo?
Enquanto conto sobre a Criação, ela viaja pela imaginação. Não consegue entender como a terra era “sem forma e vazia”, sem pessoas, flores ou borboletas. Porém, os simples desenhos marcados na folha, chamam sua atenção e lançam no esquecimento sua questão. Quer agora saber o que o Criador fez para mudar a situação.
– Ele disse: “Haja luz”! E a luz passou a existir – digo eu, movendo minhas mãos em frente ao seu rosto, representando uma explosão de luz – E ele viu que era bom.
Provavelmente tenta visualizar em sua mente, o surgimento imediato de uma luz em uma terra escura. Ou apenas parou para observar as cores no papel que não pertencem ao desenho e estão fora das linhas, revelando seu uso anterior, visto que chegou atrasada e escuta a história já contada para as outras crianças. Apresso-me para terminar, pois todos estão indo embora, mas não deixo de contar detalhes dos seis dias especiais pois a garotinha está muito empolgada e ainda não percebeu que chegou apenas no final do encontro.
– E então, no último dia Ele descansou – termino a história e fecho o livro – Bom, vou dar para você a atividade, mas terá de fazê-la em casa porque o culto já acabou.
– Como já acabou? Eu quero ficar mais – afirma a menina, entristecida com a notícia.
– Vocês chegaram ao final e agora todos precisam ir para casa – tento explicar, levando a garotinha e sua irmã até a porta. Ela me dá a mão e atravessamos juntas a rua, parando em frente ao seu prédio. Não a conheço muito bem, mas sei da história de sua família e das dificuldades que passam aqui, sendo estrangeiros.
– Não quero ir para casa – diz a garota, cruzando os braços – quero ficar na Igrejinha.
– Mas você terá mais, no próximo sábado! – digo isso tentando lembrá-la de que voltará ao culto infantil – Estarei lá te esperando para contar mais histórias.
Abaixo-me, ficando à sua altura e pego sua mão, tentando confortá-la. Vejo todas as outras crianças que passam ao nosso lado e reflito em todos os relatos a mim contados. Recordo-me daquelas que são vítimas de crimes absurdos e também das que vivem em situações lastimáveis. Sinto-me distante de todas elas ao mesmo tempo em que me aproximo de suas realidades. Percebo que aquela menina diante de mim e todas as outras ao meu redor, são minha responsabilidade agora que as conheço. Abraço a garotinha e recebo em resposta algo que nunca esquecerei.
– A igrejinha é o melhor lugar. Eu queria ficar nela para sempre!

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