Mas ela não se assustou? – crônica

Ainda de olhos fechados consigo escutar os adultos conversando lá fora, alguém mexendo panelas na cozinha, entre o barulho do gerador da vizinha e o som daquele pássaro que parece viver nos fundos da casa. Quando abro os olhos, vejo o mosquiteiro cinza pendendo sobre mim e os finos colchões de algodão encostados na parede de cimento, indicando que as meninas já estão acordadas.

Num movimento rápido, para cumprir com a aposta boba que fiz comigo mesma, tento me livrar da rede pendurada no teto. Ignoro o fato da cama estar bem próxima do chão, bato forte os pés no piso de concreto e logo me arrependo. Lembro-me das histórias contadas na noite anterior sobre as frequentes visitas de escorpiões, motivo pelo qual nos aconselharam a andar sempre bem calçados.

Enquanto tomo o mata-bicho – um sinônimo de “café da manhã” no português de Portugal – meia dúzia de pessoas entram e saem da sala, olhando de forma curiosa para mim. Todos cumprimentam meus pais e o casal anfitrião, deixando a casa com a promessa de voltar mais tarde para o serão.  Entre estas pessoas estava uma mulher com cerca de 24 ou 25 anos de idade, que deixou a filha pequena aos cuidados da dona da casa, para ir trabalhar na praça – espécie de feira angolana. Aproximei-me da menina fazendo careta, na tentativa de fazer amizade, logo estávamos no quintal brincando de montar casinhas de barro com as outras crianças que se juntaram a nós.

Passamos o dia brincando. Fomos até o rio seco, onde os adultos cavam buracos à procura de água, para brincar próximo aos grandes embondeiros – árvore grande conhecida também como baobá – e junto com as meninas mais velhas, costuramos roupinhas para as bonecas de pano.

No final da tarde como combinado a mãe da menina voltou para buscá-la e ficou surpresa ao vê-la brincando comigo.

– Ela não se assustou? – perguntou espantada apontando para sua filha.

– Por que se assustaria? – questionou a anfitriã – Ela ficou muito tranquila durante o dia.

– É porque minha filha nunca tinha visto uma pessoa branca antes, então achei que iria estranhar!

 

 

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5 comentários

  1. Esse relato me faz lembrar de que em terra alheia o estrangeiro sou eu, sempre em processo de aculturação. Amo África, sou cidadão do mundo, mas não pertenço a ele, só estou de passagem, peregrinando.

  2. Muito rica e emocionante seu relato, ainda mais quando narra a estranhesa da mãe em relação a sua filha não ter contato com pessoas de pele mas clara.
    A prova que daqui pra la, e de la pra ca, somos identincos perante a Deus.
    Amei, aguardando por mais relatos.

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